Este é o segundo "relatório" de viagens ao Kuluene, e completa (por ora) a publicação dos textos sobre pescaria. Publico já, deixo para colocar fotos à medida do possível.
Xingu 2 – Setembro de 2004
De tudo que acontece ao nosso redor, só uma fração percebemos, do que percebemos menos lembramos, do que lembramos nem tudo se conta. Temos mais esquecimentos que lembranças, a maior parte de nossa memória são fragmentos do que passou. Esse relatório é um desfiar de fragmentos.
1-Cotas estouradas
Nota explicativa a este item:
A expressão originalmente se referia à quantidade máxima permitida de peixe, em quilos, por pessoa, e que na nossa volta não foi conferida. Nas palavras da fiscal do posto em Canarana, quando nos apresentamos para a fiscalização: “não precisa pesar, vocês são os únicos que fazem isso”. Neste relatório, as “cotas” abaixo citadas se referem a tudo que nos pareceu impressionante, excessivo, exagerado, despropositado ou absurdo. Vejamos:
1.1. Tamanduás-bandeira atropelados. Só no trecho pra lá de Iporá havia 6. O tráfego intenso de caminhões de soja e as enormes extensões de desmatamento sugerem que em breve não vamos ver mais tamanduás, nem atropelados.
1.2. Tizius atropelados por nós. Como já estava causando constrangimento, quando depois de Canarana, na estrada de terra, o vigésimo e tantos largou as penas no pára-choques, para diminuir a sem-graceza do dano ecológico demos uma amaciada: “esse não conta, foi suicídio”, com o que todos a bordo concordaram prontamente.
1.3. Pochete de uma arroba do Sô José (só de Xampu eram duas “pets”), o que se torna ainda mais estranho quando se considera a escassez capilar que o assolava. No final das contas, até que faz sentido: os poucos fios restantes acabam sendo muito valiosos e hipercuidados. Vou criticar?
1.4. Cagada do Herbert na beira do rio. Sem comentários.
1.5. Telefonemas do Tiago para as moças, o chão batido ao redor da antena. Ficou com uma agilidade para conectar os fios e conseguir linha que era de se admirar. Acabou salvando todo mundo: quando íamos telefonar, era o único que fazia dar certo.
1.6. A explicação do Sr José ao fone, doido para voltar para a folgança do à toa, mal falou o “alô”, já foi encerrando o assunto: “vou ter de desligar, tou no meio do mato, tem uma fila aqui querendo usar telefone...”.
1.7. Ainda na ida, durante a viagem, o calor nos arredores da serra Caiapó, batendo fácil nos 45. De madrugada, no quarto do hotel onde passamos a noite, com o ar-condicionado estrebuchando nos parafusos, já tinha refrescado para uns 35.
1.8. Jantar em Canarana: Izalmo e Wagão botaram em prática misteriosa superstição do “não pode desperdiçar nada”. Ao final, Izalmo, a barriga brilhosa no calorão, ficou entalado de farofa e picanha até de madrugada. Acabou desperdiçando tudo no vaso para tentar dormir. Amanheceu meio verde, enfrentou a mesa do café da manhã de ponta a ponta, com uma passada bem marcada pelos ovos cozidos, seguida por visita honesta ao setor de bolos, biscoitos e afins, com os devidos queijos e manteigas, concluindo com dois copinhos duplos de suco de caju. O efeito foi sensacional: além do aumento de gazes, o caju adstringente deixa o botão afinado e sonoroso. Peidava em ré maior, com uma forcinha chegaria a sol, mas não arriscou, por causa que podia cagar nos colegas ou estufar a hemorróida em lugar de pouco recurso, pomada nenhuma nos 500 km ao redor.
1.9. Iscas artificiais do Herbert, duas caixas que fariam a alegria do Joãozinho Trinta. Tinha de perereca com penas a minhoca pintadinha de purpurina, em gavetinhas com sortimento completo de formas, cores e texturas, tudo tapeante, comida de mentira pros bocós, cheias de despistadas espetosidades. De tudo se tira conclusões. No caso, ou peixe tem um gosto surpreendente, ou a fábrica pertence à Elke Maravilha. A falta que faz uma cumbuca de minhocas ou um novelim de minhocuçus...
1.10. Costelas e buracos na MT020 (o “atalho” indicado pelo Fernando): ficamos parecendo parkinsonianos por umas duas horas. Até comentar a desgraça era arriscado: era tentar falar e mastigar a língua. A outra camionete não pulava: conforme explicação do Edilberto: “Pula não. Com o Izalmo, Wagão, Tiago e o cacharão do Tõe Lino, é muita carga”.
1.11. Cagança do Tõe Lino quando buscou o cacharão, acima citado, na tarde do último dia, e depois ficou arrotando choco: “deixei para pegar hoje para levar peixe mais fresco...”, e ainda fez questão de fazer foto em pose do homem do rótulo da Emulsão Scott, com o cacharão na cacunda. Ficou bem parecido, provavelmente o homem do bacalhau fedia menos. Só não escutamos outras quarenta vezes a descrição da fisgada, da linha que quase arrebentou, dos garranchos que o peixe arrancou, do perigo da canoa que quase virou, do susto do piloteiro, da perícia da tomada de linha e do ajuste da carretilha e etc por quê viemos embora, ainda bem que era o último dia, se não ia todo mundo ficar de inveja recolhida, o que seria um perigo pelo risco de termos de contar mentiras maiores.
Pode-se dar um desconto com o entusiasmo após a embarcada do cacharão, quando lembramos que estávamos em certa abstinência de fisgadas que valessem a pena: a coisa estava feia, o dia inteiro para tirar duas piranhas, já estávamos gabando quando alguém pegava alguma: “peixe danado de gostoso”; “braba demais”, “uma ganchada de piranhas faz muita vista”, “num tem carne mellhor”, etc, etc.
Foi devido a essa carestia de peixes que, em conluio no meio do rio, eu, Tiago, Edil e Tõe Lino (já calibrados de Farrista e cervejas, que ficar no rio sem pescar nada e agüentando borrachudos é ótima desculpa para enxugar a cuia) acertamos providência para obter o desejado efeito de impressionar os colegas: o jeito era dois de nós irmos mais cedo para a pousada e pendurar os peixes do freezer no gancho de pesca do dia (todos os dias, quando os barcos chegam os piloteiros limpam os peixes e os colocam para escorrer nos ganchos do varal antes de guardá-los no freezer, varal esse que fica acima do ponto onde os barcos chegam, portanto bem à vista de todos que chegam).
Foi encher o varal e apeou o Sr José, muito feliz com dois peixotes que pegara, olhou o varal com a peixaiada lá, tudo durinho e com os bigodes quase quebrando de gelados, nem deu pela avacalhação, ainda elogiou: “que beleza, heim? eu também peguei dois...”. Pô!: coisa chata é quando a gente prepara palhaçada tão caprichada e o colega elogia ao invés de ficar com inveja. Um desaforo esse negócio de companheiro fino que não cai nas esparrelas, tive de tirar tudo do varal e voltar para o freezer sem o gostinho. O trabalho todo só serviu para fazer umas fotos e para dar um susto nuns filas-bóias que apareceram, viram a peixaria e saíram ressabiados...
2-Contribuições para o léxico e para a sociologia/antropologia das pescarias
Aqui incluímos não só as expressões idiomáticas colhidas no contexto da pescaria, mas também alguns comportamentos, buscando oferecer subsídios para compreensão das complexas interações que caracterizam o ambiente.
“No beiço da purga” não teve explicação razoável, pelo contexto pude deduzir que seria expressão idiomática são-franciscana, correlata a “está quase”, ou a “está por um fio”. Izalmo e Edilberto pareciam familiarizados com ela.
“Mais encaroçadas que costelas de sapo” eram as canelas do Tõe Lino após servirem de lanchonete pra tudo quanto qualidade de praga do Kuluene. Tõe Lino buzuntava-se com repelente de fabricação própria, xaropada verdosa de óleo para troca de fraldas (do neto Bernardo?) misturado com folhas amassadas de citronela, parecendo azeite de restaurante chique. Se Tiago não avisa, era arriscado alguém derramar na salada.
À noite, enquanto tomava tunda no truco, desesperado pelos tentos perdidos e esfregando as canelas encalombadas uma na outra, gabava a eficácia: “se não é o meu repelente...”. A beirada da orelha parecendo uma amora “de-vez”. Acabou esgotando as duas latas do repelente industrializado que tinha levado, trem venenoso, quando estava pescando, era passar e os peixes sumiam.
“Parecendo periquito na goiabeira” era o Herbert andando para lá e para cá em cima da canoa, experimentando alguma isca da coleção, e joga e recolhe linha, e solta a poita, e prende a poita, e vira pros lados, e vamos ver mais ali embaixo, agora vamos para a outra curva, ajunta os trem e vamos lá na corredeira, o piloteiro ganhando uma graninha suada...
De comportamentos típicos, citamos as batráquicas participações do Wagão e do Tiago ao redor da mesa de truco, um porre, avacalhando a roubalheira, um desaforo, não se podia roubar nas cartas, nos tentos, no grito que vinha logo um sapo com gritarias, risos de avacalhação e dedo-duranças. Preferível mil vezes o Sr José, sapo delicado conquanto de reações ligeiramente inoportunas. Quando Wagão tentou roubar no grito com uma trinca de cincos na mão e Tõe Lino chamou, só comentou “Nossa Senhora!”, virando o rosto com ar de pena. Wagão só pode lamentar: “pô!”. Bem feito para Wagão sentir o “efeito dicóco” no jogo. Aliás: “dicóco” é um dos nomes mineiros dos sapos do gênero Bufus, corruptela de “de cócoras”, alusão à posição agachada típica dos batráquios, bem ilustrada pela figura do Tiago agachado na cadeira coçando os calombos das canelas e de butuca no jogo.
Mas Deus castiga: Tiago, gerenciando arenga de Herbert e Tõe Lino, já tava cansado de mediar a história: “devo de ter jogado pedra na cruz”. Depois de assuntar as rabujentices e criancices, tivemos de concordar: deve de ter jogado mesmo, e acertou no saco. Para que servem os amigos? Para criar um espaço onde se possa ir além dos limites sem riscos de execração real (tornando a execração motivo de risos mais de cumplicidade que crítica). Peidar, beber, falar, fazer, ser rabugento, dar pitis, sem risco de deixar seqüelas, sem perda de confiança ou afeição: os amigos sabem dar o devido desconto, além do que o contexto facilita, conforme ilustrado pelo riso deliciado do Bismarck, um dos Metralhas, quarteto boa paz. Enquanto peidávamos, arrotávamos e falávamos merda, ele cutucava o Sô José, nos apontava satisfeitíssimo: “tá vendo, Zé?: isso é pescaria...”.
2.1-Mistérios e esquisitices
Não se anda pelo Xingu impunemente, no sentido de se poder passar sem experiências só possíveis nas matas das beiradas, praias ou águas do Kuluene, sem esquecer os contatos com os peixes já que, teoricamente, fomos lá para pescar, o que também aconteceu.
O peixe elétrico salvo pela ecologia de ocasião
Nossa canoa leva fácil o troféu de pesca mais esquisita: só tronco, arraia, uma coleção de tracajás (onde se inclui o caso do tracajá embriagado). E o caso mais esquisito: na curva onde os Tuiuiús andavam catando graveto (carregavam cada feixe de lenha que dava para fazer fogo de engrossar garapa), Tõe Lino, quebrando o tédio da conversa mole do nosso piloteiro pé-no-saco (que saudade da discrição do Dirceuzin), fisgou um trem, veio vindo um troço escuro, grosso, foi recolhendo enquanto tentávamos entender o que vinha lá: “é Sucuri” (eu sei, eu sei, tenham piedade: só mesmo a nossa vasta experiência de sertanistas para imaginar sucuri pega a anzol com isca de tuvira); “é pirarara” (o que é desculpável, dada a primeira vista da cabeçona fora d’água, embora a puxada fosse muito mole, longe da nervosia habitual das pirararas); “sei lá que que é isso? Parece uma tuvirona de uns 10 quilos” (quando começou a cair a ficha de que era um trem esquisito mesmo), até darmos com os quase dois metros de poraquê, vulgo “peixe elétrico”, ao lado da canoa, o que foi um susto e um espanto: tem de levar isso pros colegas verem.
Com esse espírito de solidariedade para com os colegas (e algum diáfano desejo de passar por grandes pescadores), arrastamos o bitelo pelo anzol até a praia, puxando pela linha com medo de botar a mão e tomar choque, quando começou a sair da água o anzol escapou e o bicho se encolheu um pouco, ficou no raso, vai-não vai embora, pedi a faca do piloteiro e pulei na areia, explicativo: a gente corta a coluna com a faca, secciona e desliga o bicho, num vai ter mais choque, é só levar, fui em frente, foi encostar a faca e tomar uma lambada de uns 300 volts no braço passando pela cacunda e saindo nos dedos do pé que subiram tudo uns em cima dos outros por dentro da botina, mas sertanista que é turista, quero dizer, que é sertanista, não entrega os pontos assim (sou lá besta de dar chance para aporrinhação dos colegas?), só entreguei a faca para o piloteiro voltando para a canoa na mesma velocidade que tinha decido, recuperando o fôlego e sem explicar muito o que tinha acontecido: “melhor deixar o bicho ir embora., deve de tá em extinção...” (o piloteiro depois veio informar que tem lagoa onde poraquê é praga, fiz que nem ouvi).
Para minha sorte não havia câmara por perto que documentasse a experiência, mas quando Tõe Lino lamentou: “ah... devia de ter trazido a filmadora”, concordei: “é mesmo, heim?, que pena...”.
Vale a pena uma explicação para atenuar o vexame: segundo o livro do Eurico dos Santos o choque de um poraquê grande (e esse não era nada miúdo) pode chegar a mais de mil volts: ainda bem que ele veio dando chilique e choque na linha de pesca enquanto era recolhido, se não eu não teria tido chance de despistar.
Depois de tudo acabado, na segurança ao redor das panelas da janta, Tõe Lino ficou dos mais experientes em estratégias para pegar o bicho, que ia fazer uma laçada com a corda, que era só passar no pescoço e dar uma apertadinha, que a corda que ele tinha era uma beleza de resistente e nem conduzia eletricidade, etc, etc... Sei...
O jaú enfeitado
A se dar crédito às explicações de Wagão e Edilberto para o monte de anzóis perdidos - todo dia na hora do almoço envinha um deles (ou os dois juntos) explicando: “os anzóis que eu perdi foi peixe grande demais, fisgou mas arrebentou a linha, carregou tudo...” - o já conhecido jaú (mencionado no relatório anterior) que mora no poço da saída das corredeiras já deve de ter mais piercing na cara que mocinha modernosa, dessas de shoping. Fosse pescado algum dia (dando chance às mentiranças de que existe mesmo), ia ser solto no susto e ainda ampliaria o folclore, com história do peixe veterano de pesca: só carretilha deve de ter duas penduradas nos beiços, foramente miudezas de anzol, encastol e chumbadas nas barbas. Bicho muito vistoso, como diria Amália, mais enfeitado que jumento de cigano.
Tracajá embriagado escapa de virar farofa
Na falta de peixes, os tracajás passaram a ser olhados com interesse. Um grandão, que causara mais esperanças de ser peixão bom até dar o ar da graça, foi levado à praia, recebeu dose de cachaça e foi largado lá. Pelo que sabemos, a cozinheira já o estava esperando, viu ele lá, meio besta, de barriga para cima, sem reação, achou que podia dar um prazo, quando voltou, o bicho já tinha sumido, sem nem dar tchau, foi dar um mergulho para refrescar o porre. Caso parecido ia acontecendo com um jacaré, que só não entrou na farra por causa do dó de desperdiçar cachaça com bichos tão mal agradecidos.
Roubar no truco causa surto psicótico
A tunda no truco e o choque epistemológico no Izalmo: “dois zapes? Uai? Mas num pode não, pode?”, só comparável ao estranhamento do frentista no posto de Canarana, quando Izalmo pagou em dinheiro e orientou: “entra com essa nota só quinta-feira”.
As estações do ano dentro d’água são outras: enquanto para nós no seco o verão está começando, dentro d’água está chegando o inverno: o outono aquático é lido nas folhas que as primeiras enxurradas entregam à correnteza, o sinal para os peixes começarem a viagem. A maioria para o norte, nós para o sul.
A batuíra de esporão (Hoploxypterus cayanus), de máscara preta, na ponta da praia, areia úmida, batendo o pezinho, ensaia sozinha silenciosa catira, só ouvida pelos bichinhos que quer assustar.
Tralha a levar
Farinha
Varinha e anzóis para pescar lambaris
Minhocas e piabas congeladas
Anti-inflamatórios
Luva de borracha, isolante
Livro de pássaros e árvores (Ô ignorância meu deus...)
O problema do mijador e do cagador continua: há que organizar instruções para uma cagada mais confortável equilibrando-se na canoa.
Tio Hugo, na volta: “tenho de ir só para ver se isso tudo que ocês contam é verdade...” (está na cara que dispensa pescaria e que não quer ser convidado).
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