A margem do dia
(réquiem para um caçador)
Marcelo Araujo Campos
Chegara na tarde do dia anterior. Passando pelo açude, percebi os bandos de paturis na rasoura, revoaram quando o carro passou deixando poeira grossa parada no ar sêco e sem vento. O açude muito baixo e ainda longe as chuvas. No cerrado floradas de assa-peixe e pio de perdizes. Fins de julho.
À noite, sentado na varanda, após a janta, limpei a espingarda em gestos lentos - tanto tempo! Havia manchas de ferrugem, pouco visíveis sob a lâmpada fraca, ásperas ao tato, e não as retirei de todo. Levaria a vinte-e-dois, mais leve, balinha miúda e difícil para caça a patos, mas de alcance (e desafio) maior. No céu vermelho do poente, li frio para a madrugada. Deixei uma blusa de mangas compridas junto da cama e uma capanga com balas pendurada na parede.
Acordei com os galos, mas esperei seus cantos se tornarem repetidos para levantar. O frio esperado me gelou rápido as mãos e os pés enquanto me vestia no escuro. Encontrei o relógio e vi com dificuldade as horas - 3:50. Abri a janela e o ar da noite me fez juntar as mãos. Rumo ao banheiro. Bem desperto, alcancei fácil a espingarda e a capanga, a blusa e o chapéu. O metal frio era desagradável aos dedos após contato com a água. Desci as escadas da cozinha sem barulho, comi os biscoitos deixados de véspera e saí para o tempo. Atravessando o curral, olhei para cima. A leste Órion bem visível, mas eu sabia que ela só estaria no meio do céu lá para outubro.
Caminhava sem dificuldade pela trilha limpa, e naquele momento entendi perfeitamente porque meu avô rira quando, já caduco, certa noite eu lhe dissera que estava amanhecendo: pura alegria de estar vivo na madrugada, um prazer que ele conhecia. Foi a última vez que ouvi seu riso. Faleceu em meados de junho, quando o frio já chegou e aparecem raposas atropeladas nas estradas. Era um caçador, e essa minha homenagem: uma última caçada, suas técnicas aprendidas.
O açude ficava a uma légua, e em passo rápido mas cauteloso, calças e botas molhadas de orvalho do capim, andei só atento ao caminho. Os pés insensíveis de frio. Mesmo na madrugada as flores do assa-peixe cheiravam. Aos poucos o céu passou de negro para azul escuro, e já havia uma faixa vinhosa no nascente. Cheguei às árvores da beira do açude, andando com cuidado na penumbra, difícil ver onde pisava. Reconheci um tapicuru numa clareirazinha e fui em sua direção. De lá a vista para o açude era limpa, eu esperaria sem pressa.
Sentado num cupinzeiro, que a grama estava molhada, apoiei a espingarda na perna enquanto apanhava as balas - seis - e a carregava. Podia colocar mais de vinte balas, mas temia esquecer alguma. Melhor armar à medida do necessário. Saracuras três-potes cantaram no meio das taboas durante muito tempo, depois fizeram silêncio. Será possível que vai chover? Aguardavam também. Ali era a margem do dia.
Às cinco e pouco havia claridade suficiente para discernir o verde escuro da mata em frente. Me distraíra, olhando o nascente, de costas para o açude. Ao me voltar tive dificuldade em enxergar um bando contra o céu escuro. Alguma estrela ainda era visível. Cinco ou seis pares de asas sincopadas, vôo reto e firme, vinham em minha direção. Os soube, sem pensar, patos-do-mato, Cairina moschata conhecidos, auras metálicas. Vieram calados sobre a mata, curva suave para minha direita, descendo. Os acompanhava, apontando um dos que voava mais baixo, difícil ver a mira no escuro. O dedo já pressionando o gatilho, mínimo a mais para o disparo.
Atirei quando os tive de perfil. Houve um momento de indecisão, o bando oscilou entre uma ou outra direção de fuga. Patos enxergam mais cores que humanos, não deve ter sido difícil para eles me verem junto às arvores. Decidiram pelo leste. Eu errara e eles aceleraram as asas, ganharam altura e passaram direto, sem sons. Rumaram para o São Francisco. Nada a fazer. Me sentei, a arma já recarregada (nem percebi quando, com vem-e-vai automático, a recarregara). Olhei-os voar e sumir, pontos no céu clareando do leste. Meus olhos sorriam semi-cerrados. Um frio real, ajeitei o chapéu e voltei ao cupinzeiro. Minhas orelhas ardiam.
Depois um bando grande de iriris pousou longe. Não me mexi. Pequenos demais. Quando outros patos apareceram eu já decidira esperar tê-los perto, se não pousados, para tentar outra vez. Como os primeiros, vieram de noroeste, desceram com elegância para pousar estabanados, também longe. Bichos desconfiados. Rumei para lá, me abaixando, até vê-los através das painas do brejo. Pisando no barro da margem, umidade nos pés, me apoiei numa árvore morta e tentei a mira. Atirar é o instante que já aconteceu. O pato revirou-se, agitado, e boiou enquanto o resto do bando decolou correndo sobre a água. Os iriris também voaram com assovios. O sol estava nascendo em muitos vermelhos.
O pato morto estava longe da margem. Na curva do açude, onde passava a estrada velha, havia uma moita de bambus, morta quando a água do açude lhe cobriu as raízes. Caminhei até ela e quebrei uma vara longa, sem retirar os ramos. Ainda assim, sem opção: tive de descalçar as botas e retirar a roupa, água nos joelhos, tentativas tateantes trazendo a caça para a margem. Comparada ao ar, a água estava quente.
Com o pato nas mãos, abri suas asas, em arremedo de vôo, o pescoço pendente atrapalhando a fantasia. As peninhas do papo, claras, as do pescoço, negro-esverdeadas. Belíssima ave, os pés alaranjados, pequena carúncula no bico de serrilha delicada. Balancei-o, asas estendidas. Não havia nada além de maciez e entrega no relaxamento da sua morte. Seria a caça uma tentativa, invejosa, de voar, como se ter a ave me tornasse dono do seu vôo?
Novamente vestido e calçado, o frio me obrigou a me agachar depois de pendurar o pato pelos pés num galho. O sol da manhã ainda não aquecia. Fiquei mais um pouco, sombra comprida nas moitas, aguardando esquentar. O pato já estava meio endurecido, gotas de sangue seco nas penas da cabeça. Pombas-trocal solitárias passaram em direções variadas. Retomei a trilha com o sol às costas, calor bom. Pato pendurado na cintura, uns três kilos, me sujava um pouco. Enquanto caminhava retirava as balas não usadas.
A mesma morte que eu levara ao pato me será trazida um dia. Como ele, serei decomposto e extinto. Com estes pensamentos, olhei-o pendente, com o respeito que se tem pelos semelhantes. A finitude nos fazia iguais. Conquanto fosse triste saber que ele nunca voaria outra vez por causa de um gesto meu, reconhecer minha morte na dele sublimava meu sentimento de culpa. De qualquer forma, era a última vez.
Havia fumaça na chaminé, subindo no ar da manhã. Abaixei os ombros para passar debaixo da cerca, a espingarda contida na mão esquerda, a direita elevando o arame frouxo. A caminhada me fizera bem, e apesar do frio eu me sentia capaz de caminhar vários quilômetros. Na cozinha, joguei a caça sobre a pia e me servi do café, aproveitando o calor da xícara para aquecer os dedos.
Depenei e sapequei as penugens restantes na pele segurando o pato pelo bico e depois pelos pés sobre as chamas do fogão de lenha, como muitas vezes fizera com codornas, perdizes, marrecos, patos, verdadeiros, rolinhas e outras caças de pena, quando criança, à luz da lamparina ou ao sol da manhã, quando meu avô chegava. Esse era um instante enquanto ele, analisando os ferimentos, discorria sobre técnicas e posições para o tiro, o momento melhor, cano esquerdo ou direito da cartucheira, estilos de arrancada das perdizes, os hábitos das aves, seus alimentos, pios e seus significados, etc, etc... Trabalhei em silêncio.
Cortei os pés e a cabeça, abri pelas costas e limpei. Tinha ovos em formação.Temperei com sal e alho, deixei numa gamela coberto por peneira. Assei-o para o almoço e comi com arroz e tomates picados. Os ossos muito duros. Uma rêmige em bom estado guardei entre as páginas de um livro.
À tarde apanhei as armas, desmontei, limpei, untei com óleo, remontei e guardei. Pela janela vi os coqueiros plantados por ele contra o céu, caía a tarde. Estava terminado. Voltei pela estrada de terra. Quando cheguei ao asfalto estava escurecendo, uma codorna atravessou a estrada. O vento já me levava os pensamentos, outros longínguos tempos. Acelerando rapidamente, virei para sudeste, costas para a estrada que apontava os restos do dia, viajei na noite.
Na cidade ao chegar pequenos torrões de barro se desprenderam das minhas botas e ficaram no asfalto, enquanto caminhei rumo à porta.
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