Nesta Parte 1 incluo "Apresentação" e dois dos textos que compõem o conjunto "Outras Cidades", compondo série de textos escritos entre 2001 e 2006. A intenção é publicar um a três textos em cada parte desta série.
Apresentação
Confesso constrangimento óbvio: como justificar a semelhança (ao menos no formato, quisera na qualidade) com As cidades invisíveis de Calvino? Posso explicar, justificar seria outra história. O achado de Calvino - o uso das cidades como símbolo de relações humanas - me pareceu caminho feliz pela fusão de muitos aspectos da realidade, dos arrazoados e analogias sobre os sentimentos facilmente alocados nos espaços humanos (e onde mais poderiam ocorrer?) dos quais as cidades são o mais rico em significados. Imagino haver também realidade nestas “outras cidades”. Mas para quê descrevê-las? Pode-se escrever para o próprio consolo ou transcendência (o que talvez seja a mesma coisa). Não há (outra) justificativa.
As cidades e a religião - 1
O motivo de adoração dos habitantes de Belina não tem nome, nunca é citado. Não existe o hábito de mencioná-lo, dar-lhe graças, temê-lo nem suplicar sua ajuda. Não há dogmas a serem observados pelos conservadores ou criticados pela juventude. Não se erguem construções ou imagens, não há livros com regras de conduta, os estrangeiros os acharão um povo sem crenças. Contudo, seu respeito é tão grande que não se atrevem a criar qualquer limite ao seu motivo de adoração, seja denominando-o, imaginando sua aparência, opinando sobre juízos ou definindo suas preferências. Sequer ousariam descrever sua crença, como se isso fosse algum tipo de blasfêmia. Em matéria de divindades, o motivo de adoração dos belinenses atingiu a perfeição prescindindo da existência.
Felicidade não é atingível, e essa conclusão tranqüiliza. Parte da angústia era imaginar que a “culpa” pela ausência da felicidade era pessoal, algum tipo de fracasso. Ao colocar a felicidade como algo pertencente ao reino do imaginário, me aproximo dela. Rio: que tristeza! Ué?! Lembro: “when me they fly, I am the wings...” - Attar, Brahma.
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