sábado, 14 de julho de 2012

Outras cidades - Parte 6 ("Xandia" e névoas)

As cidades e seus motivos – 3


Xandia tem história obscura, apagada e reescrita por muitas alternâncias de interesses, pouco chegou ao hoje. Os próprios monumentos e sítios arqueológicos, ao serem pesquisados, mais confundem que esclarecem, tal a profusão de indícios contraditórios, ou de contradições para explicar os poucos indícios, ou da falta de critérios na seleção das perguntas que se faz ao se deparar com eles, e há os que tentam mais explicá-los que compreendê-los. Puristas, como todos os tendenciosos, se apegam a fragmentos da história, aqui ou ali, como sinais de um todo que reconstroem segundo si próprios, obtendo o mesmo padrão mitificado do seu redor, os apresentando como verdadeiros. Mostram Y para ocultar X reforçando Z, simulam ocultar W para insinuar W+, enaltecem ou injuriam K com afirmações não verificáveis. Como já é sabido e já foi dito, "inventam o passado para justificar o presente e controlar o futuro". Contudo, os fragmentos lidos pelas diferentes facções não se encaixam em todo que permitisse vislumbrar de onde vieram. De tudo que se diz, escreve, alega, argumenta, fica evidente que nenhuma verdade resistirá, enquanto a realidade não for o foco. Num exercício de desprendimento, pode-se aprender que o mais real e perene sempre foi as manobras para dissimulação, ou melhor, que  a aparente falta de sentido dos indícios é indício de um padrão histórico maior: a repetição, pelas pessoas,  de erros, evoluindo muito lentamente. Esse aprendizado, para alguns, é importante, para outros pouco útil ou conveniente. Exatamente o que a história (e suas lacunas, aquelas partes de difícil compreensão para os que precisam deduzir contextos a posteriori) nos mostra.





As cidades e os destinos – 4


Ocorreu-me falar de uma cidade que me pareceu particularmente bela. Lembrei-me da avenida longa, suas luzes, semáforos, lanternas e faróis dos carros sob chuva fina, visíveis da sala de estar do hotel. Revi a cúpula da catedral altíssima, à minha direita enquanto tomava o café no terraço do prédio, a vista da baía e do porto, o caminhar entre velhas construções redivivas à noite, com seus concertos musicais, o cheiro de magnólias e brisa marinha na madrugada, caminhando ao seu lado. Como escolher o que era mais belo? Tento: o mais bonito era estar vivo. Era estar lá. Era tê-la comigo. Era uma mulher gostar de mim. Era me oferecer sua boca sorrindo. Era me abraçar entregue a mim. Não, tudo isso, e não no passado: o mais belo desta cidade é levá-la comigo, para sempre, símbolo de ter amado. Êi-la aqui, em meu peito, cidade de névoas que abrigam.

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