As cidades deixadas - 1
Não há vantagem em insistir contra o calor abafado de Beira Rio, concorda-se, o chofer do táxi despreocupado o demonstra. O vento não existe sequer em sua mitologia, as tempestades de verão eterno, fugazes e violentas, não refrescam. A densidade do ar, diminuída pela umidade e pelo calor, causa sensação de irrealidade. Tranqüilizados frente à impotência, nada a fazer a não ser estar lá. Então, assim, houve uma tarde, gotejada pelo sol após a hora do almoço, em que um casal caminhava em sua periferia, distantes mas próximos. A tarde era líquida, parecia infinita, agora é passado. Pode-se apelar às memórias para evocá-la, pode-se reconstruí-la com os detalhes que se foi capaz de apreender e lembrar, pode-se tentar dar continuidade ao diálogo que aconteceu, imaginar as perguntas e respostas, as implicações, remoer os significados, os gostos que os olhares tiveram. Houve a tarde, a cidade está lá. O casal, levado em direções diferentes, a tem cada um ao seu modo. O calor, o sol, a estrada, a leve embriaguez pela cerveja, pelos ditos, pela presença, pelos sentidos. Há um que diz, às vezes, em seus devaneios, caminhando de olhos no chão sob o sol em outros lugares, como se rezasse: “Guardastes, ó Sol, as imagens que iluminastes, e as devolve, me envolvem, nesse brilho que ofusca. Lembra, caminho de pedras, o caminhar que aconteceu. Tenha em ti, cidade oeste, tu a que não é essa, que já vistes tantas tempestades, esse amor derramado em ciclone de chumbo e silêncio. Fundido, também líquido, suspenso em tua atmosfera. Numa tarde pessoal, separada dos tempos. Na pedrinha deixada sobre aquela mesa. Aqui caminho.”. Sabê-la no passado não a diminui nem causa dor. É lembrança, e lembranças são assim.
As cidades e as religiões - 4
Rezem, rezem, rezem, filhos de Bei! Calem teus desejos impuros, penitenciem-se, arrependam-se, sofram seus remorsos, implorem misericórdia, paguem dízimos, flagelem-se, jejuem, abstenham-se dos prazeres do mundo, esperem a morte. Alguém tem de justificar os prazeres de Deus. A cidade não dirá nada.
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