As cidades e a religião - 2
Existe no planeta esparsa, móvel confraria de não iniciados.
Se reconhecem pelo sotaque dos olhares e gestos, se cruzam pelo mundo. Às vezes
acenam amistosamente ou sorriem, se reconhecendo em lugares imprevistos, o
calor no peito e uma harmonia imediata e antiga os identificam intensa, mútua,
exclusivamente. Quem sabe aconteça no Kalahari, entendimento silencioso e
profícuo entre caçadores bosquímanos; entre fregueses num pub na
Islândia; entre tibetanos condutores de yaks partilhando
trilhas sob nevascas; entre andarilhos formigando nos garimpos do Mato Grosso;
entre estudantes pesquisadores no campo; entre estranhos nas salas de espera
dos aeroportos; entre um homem e uma mulher quando acontece ponto em comum no
espaço/tempo. Sem necessariamente nada em comum, cultura, signo, destino, não é
isso. Só partilhar fluidamente (uns sabem, outros intuem) o que os faz rir ou
chorar, como ouvem os ruídos do mundo, o jeito de perceberem o correr do tempo,
sua desimportância, umas alegrias. Seu profundo senso religioso se maravilha
com a existência mútua e com o fato de se reconhecerem nos momentos
partilhados, quase sempre fugazes. Sua empatia fácil, algo mística, às vezes se
materializa em paixões, redemoinhos juntos, o que não é garantia contra
instabilidades humanas, nem controle sobre os rumos que a realidade toma.
Não são raros, não são comuns. Somos nós.
As cidades e os destinos - 1
As bibliotecas de Ritális, cidade jovem, estão sempre vazias de leitores, embora exista contínuo e copioso aumento de seu acervo. Todos os seus livros são para serem lidos em algum futuro (não nesse, que é o futuro de ontem), mas para quando seus “motes” (o que os levou a serem escritos) já tenham passado no tempo ou na necessidade de serem considerados para qualquer decisão. São registros de destinos intuídos e ali (corajosamente) expostos, não defendidos nem recomendados, vislumbres, fragmentos de existências. Esses escritos, mesmo que descrevam algo que ainda não tenha sido vivido ou concluído, só serão lidos quando as respostas que oferecem já não fizerem mais diferença, seja por que as perguntas já nem sejam lembradas ou, se ainda conhecidas, contenham em si a decisão já tomada de seguir por outro caminho, ou seja: perguntas que de qualquer forma pertençam ao passado. Os escritores se consolam imaginando, em sua velhice, abrir esses livros empoeirados e ler como poderia ter sido, ou imaginando outros velhos (agora jovens e ao seu redor), ou seus descendentes, lendo o ora escrito e se comovendo com uma ternura quase insuportável (tão intensa que necessitara ser diluída no tempo), percebendo que o escritor já se comovia antevendo os olhos úmidos destes velhos do futuro, ao ser lido quando já não houvesse retorno, suas palavras não causassem mais censura ou temor, esvaziadas de seu tempo, plenas de eternidade. Alguns críticos alegam ser estratégia infame para ferir sem risco de retaliação. Não percebem que trata-se de tentativa de tardia felicidade, presentes para aqueles que agora não podem recebê-los. Os livros de Ritális correm (e oferecem) apenas um risco: jamais serem abertos.
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