As cidades e os destinos - 3
Chegam a Trite imigrantes de outras regiões, fascinados pelo ambiente verde, pelas pessoas cordatas e silenciosas, pelo trabalho recompensador, pelo respeito mútuo que se lê nas faces dos transeuntes, pelos jardins bem cuidados, pela tranquilidade do senso de humor local, refinado sem ser agressivo, divertido inclusive ao rir de si próprio. Mesmo com as tantas diferenças que afluem, persiste em Trite núcleo a que vão sendo agregadas as contribuições e experiências dos que chegam, e estes sem resistências percebem a natureza humana de seus gestos, se esforçam então para trazer o melhor de si próprios. Valorizados, respeitados em suas singularidades, encontram sentido na paz comum. Contem-me, olho meu redor e vejo tudo que Trite tem: permitam-se.
As cidades e as religiões - 3
Os felizes habitantes de Toz, do lado de dentro dos muros, oram com seus livros absolutos, ouvem comovidos e gratos palavras dos iluminados que tudo sabem, em rituais queimam purificadoramente qualquer contaminante do mundo que pudesse ameaçar sua condição de protegidos eleitos. Gradativamente expandem os muros para mais adiante, a cidade tomando espaços antes selvagens, hostis, ignorantes, que vão sendo abençoadamente submetidos à boa ordem, ao conhecimento dos prazeres das regras, ao apaziguamento definitivo do caos, onde não há mais dúvidas - não é maravilhoso? Ocasionalmente são lamentavelmente obrigados (compreenda-se: a natureza humana, conquanto imagem do divino, não é perfeita, e a cidade tem o direito de se defender) a condenar alguém - horror! - a sair da cidade. Os presos de Toz vagam pelo mundo, condenados à liberdade mais abjeta e desesperadora. Uns poucos desaparecem, não são mais vistos, há boatos de sobreviverem em outros lugares. A maioria não resiste à pena, morrem à míngua, em grande sofrimento, ou enlouquecem segurando-se nas grades que os impedem de entrar. A outros acontece serem perdoados e readmitidos ao conforto da cidade, bondosa para com os que se arrependem, grande mãe, morada dos justos.
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