As cidades e os símbolos - 1
Nas fotos expostas nas galerias e espaços públicos de Arã desfilam pioneiros, lugares, instrumentos, times de futebol, festas religiosas – gerações do gentio que se reconhece ou surpreende, observa os traços dos rostos dos antepassados, as expressões em seus olhos (há muito apagados) dos sentimentos por motivos que não podem ser conhecidos. Outras pessoas com roupas da época, ao fundo, irreconhecíveis, cujos nomes e histórias foram esquecidos, irrecuperáveis. Na praça de Arã um velho fotógrafo aponta a máquina para um novo prédio, prepara nova foto que anexará à coleção. Antes de apertar o disparador ergue um olhar que enquadra, mas também entedia. Não há interesse em documentar as mudanças para aprender com elas. As fotos provam apenas a existência do tempo.
As cidades e seus motivos - 1
Como todas as cidades, Telpa foi nascida de desejos ou contingências (os desejos não são contingências?), por eles teceu suas ruas, vielas, becos, esquinas. Ali onde se ergue uma casa e já esteve um armazém, acolá, onde agora passam os carros e houve um quintal; os novos desejos substituindo outros que se calaram, ou se perderam, ou se transformaram, ou foram sobrepujados, ou apenas esquecidos. Os habitantes de Telpa, ofuscados pelos próprios desejos/contingências, não enxergam os dos outros nem os antigos. Apagam memórias como se fossem suas, lhes pertencessem. Sem perceberem, se condenam e aos seus descendentes a urdidura infinita e sem rumo: ao apagar os desejos alheios para tecerem os seus passam a tecer o que não tem estofo nem onde se prenda. Seus olhos não vêm as pedras das ruas, mas o tráfego, incessante, incessável, para sempre. Há em Telpa quem seja feliz.
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