sexta-feira, 6 de julho de 2012

Outras cidades - Parte 4 ("Círope" e "Péren")

As cidades e seus motivos - 2


Círope tem muitas festas, as ruas enfeitadas atraem turistas, viajantes, legiões de espíritos convencidos de estarem onde deveriam. Os dançarinos típicos só usam aquelas roupas para os turistas, a comida é preparada por cozinheiros importados, os hábitos apregoados como tradições não são encontrados entre o povo. Círope é estereótipo de si própria, se perguntando em segredo se a cidade real é recuperável. Também é possível que Círope nunca tenha existido por si mesma, tenha sido sempre uma colcha de retalhos, ou nunca tenha existido outra Círope que não esta, caricaturizada nos objetos expostos, nas panelas fumegantes dos pratos “locais”, nos olhares assustados dos dançarinos - ao som das palmas automatizadas dos que descem dos ônibus e atacam as mesas e as mulheres, em qualquer ordem - tentando ver nos seus passos ensaiados sinais do caminho original, perdido, talvez nunca existido, inventado agora, ao moverem os pés em desespero, (seu desfile, suas vidas, por um fio), danças que juram antiquíssimas, ensinadas aos jovens, nelas adestrados, gritando (no grito se amparam): -Mais uma vez!

 

As cidades e os destinos - 2


Estar em Péren só é possível com tentativas oblíquas. As estradas não vão ter a ela diretamente, antes a tangenciam, estendendo vias secundárias ao passar por seus limites, se imiscuindo em suas ruas de tal forma que existe o risco de se passar pela cidade e só atentar para isso ao reconhecer os sinais dos arredores, já próximos da saída, num insight estranho: “era a cidade e já a deixo”. É cidade que se percebe ter encontrado nos preparativos da partida, onde os dias correram mais que em qualquer outro lugar, o tempo roubou no relógio, qualquer nostalgia de adeus só pode ser percebida muito tarde, transformada em surpresa, perda sem dor. Péren é cidade sem saudades, de sonhos de retorno impossível - já que todo reencontro é despedida -, roubados com habilidade, como se fossem supérfluos. Não poderia sequer descrever suas ruas, guardei retalhos visuais que não se articulam em imagem. Dizem ser bela. A verei outras vezes.




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